UMA PERSPECTIVA HOLÍSTICA SOBRE A ORIGEM DOS FOGOS FLORESTAIS E ​ ​ COMO SEGUIR EM DIANTE

Written By Doug Crouch, Temporary Resident of Portugal, Translated by Cristina Moreira

Enquanto a atribuição de culpas por este incêndio tão trágico vai rodopiando intensamente, desejo antes de mais expressar as minhas condolências àqueles que tanto perderam. Vidas, animais, bens, tradições, memórias e muito mais. Para o ecossistema é também uma tragédia. A longa história sobre como chegámos a este ponto é longa e tortuosa e o seu desenrolar por esta perigosa via é o que tento expôr de seguida.

Em primeiro lugar afirmo que todos somos culpados.

Enquanto é fácil apontar o dedo à industria do Eucalipto e assinar petições, temos de olhar para nós próprios em primeiro lugar. Uma indústria como esta, juntamente com a do Pinheiro, não poderia ganhar tão forte peso junto dos que governam se não houvesse tamanha procura.

Tal como a industria do milho domina a política agrícola e o uso da terra nos Estados Unidos – sem a enorme procura de carne barata e bebidas açucaradas, tal não aconteceria.

Perderam-se vidas por causa da procura mal gerida que têm o papel e o papel higiénico e sobretudo pela ideia do quanto mais barato melhor!
Tal como Bob Marley disse:” não julgues se não estiveres preparado para ser julgado”. Agora temos de admitir a dura realidade de que nós criamos a procura, a indústria cria a oferta, a legislação política abre-se às práticas extractivas incestuosas e o ecossistema e os seus habitantes sofrem.

Vivemos na era do consumidor e não não do produtor. Então quando se dirigir ao seu supermercado e comprar aquele papel higiénico super barato, adivinhe, está a comprar a monocultura de Eucalipto em Portugal.

A LONGA HISTÓRIA DA MUDANÇA

Na verdade começou bem lá atrás com o Império Romano. Os Romanos viajavam para a Península Ibérica para caçar, a área era tão rica em vida selvagem nos seus bosques incrivelmente abundantes que eles percorriam longas rotas para encontrar tal recompensa. Como sabemos, a caça em excesso pode iniciar uma via perigosa gerando alterações no ecossistema, também os predadores naturais da caça que se buscava começaram a diminuir devido a esta pratica.

A partir daqui iniciou-se uma longa tradição de extracção nas florestas da Península Ibérica, muitas vezes motivada pelas guerras, e começou também o processo de desertificação, há muitos e muitos anos atrás.

FLORESTA NATURAL Vs MONOCULTURA

madrhono

A floresta natural de carvalho em Portugal é uma criação fantástica funcionando por camadas e criando nichos para muitas criaturas diferentes, sendo inerente a um bosque de alimentos.
A floresta natural tem a altura dos carvalhos combinada com castanheiros nos micro-climas apropriados para a estabilidade da vida selvagem. Vários arbustos de fruta silvestre como o Espinheiro e o Medronheiro oferecem os seus frutos. Vinhas aqui e ali, vegetação ripícola estabilizando os rios, as bolotas alimentando os javalis, os veados alimentando-se da diversidade de arbustos e árvores nativas. Seria quase como uma selva, mesmo com os períodos longos de tempo seco. O ecossistema recebia um fogo de vez em quando pois todos os climas secos têm este equilíbrio. Mas a intensidade do fogo seria fraca. A supressão da floresta nativa e a alteração do ecossistema provocou o proliferar de chamas intensas que vimos mais uma vez este ano acontecer no Centro de Portugal.

 

In background, Eucalyptus and all the sort of the shrubbery that grows along or under Eucalyptus, fuel for fire

A grande indicação que os fogos seriam naturais é nos dada pela magnífica árvore do Sobreiro. Enquanto a maior parte das pessoas à volta do mundo apenas conhece a cortiça quando abre uma garrafa de vinho ou outro produto industrial, a maior parte nunca caminhou por entre uma floresta de sobreiros. A casca grossa e esponjosa que é extraída para rolhas e diversos produtos é na verdade uma reposta da evolução ao facto do fogo fazer parte do ecossistema. Este factor permite regular a paisagem mas não destrui-la. Abranda o fogo e mantém-no num nível mais perto do solo em vez de funcionar como uma árvore combustível por onde o fogo trepa.

Árvores combustíveis por onde o fogo trepa até às copas como o Eucalipto ou o Pinheiro também seriam muito mais espaçadas no seu habitat natural. Enquanto ambas estão também adaptadas para experienciar fogo nos seus ecossistemas nativos, que os humanos até aperfeiçoaram através de fogos controlados para criar espaço de savana para caça, plantá-las com esta densidade é ridículo, especialmente sem a integração de animais.

Se por um lado esta pratica dá origem a uma economia de escala, que é a pedra basilar do capitalismo moderno, estamos na verdade a lidar com uma visão não holística do ecossistema.
Logo, quando o fogo alcança as copas altas destas árvores em monocultura trepando pelo seu material altamente combustível, a intensidade e a expansão dos incêndios é tão rápida, a monstruosidade que se cria é tão incrivelmente perigosa que poderia pertencer a um filme de terror de Hollywood. Mas na verdade tem sido uma realidade para os Portugueses há já vários anos.

A DITADURA

Nos nossos tempos modernos a ditadura em Portugal teve um impacto muito forte no uso da terra. Muitas árvores foram cortadas especialmente no Alentejo interior para a produção de trigo. Uma das maiores repercussões sociais da ditadura foram as ondas massivas de emigração para fora do país nos anos que se seguiram ao seu colapso.

Enquanto até houve algo de positivo derivado destes tempos ( como Portugal ter ficado de fora da 2a Guerra Mundial e não termos sofrido a terrível destruição que sucedeu noutros países europeus que foram arrasados pela guerra ) por outro lado Portugal foi deixado numa difícil situação pois não se encontrava alinhado com os poderes ocidentais e o seu sistema de capitalismo.

Portugal manteve a sua ruralidade e isso fez com que muitos emigrassem para países considerados mais modernizados como a França, Luxemburgo, Suíça, EUA, Canada, etc…

 

POLITICA AGRICOLA COMUM DA UE

Talvez uma das maiores causas desta tragédia seja esta política.
Se é um residente da UE e não a conhece então será melhor estar informado.
Foi devido a esta política que o território em Portugal mudou realmente e o motivo pelo qual muitos secretamente se opõem à UE.
Trata-se de um sistema de distribuição de cotas que retirou a Portugal a sua identidade cultural enquanto produtor de vinho e azeite transformando-o num país florestal.
As histórias abundam por todo país mas ouve-se muito na zona Centro de Portugal onde as pessoas foram pagas para retirarem as culturas de Oliveiras e Vinhas. Os seus tradicionais modos de vida foram extintos e as pessoas mais uma vez deixaram os campos criando ainda mais abandono.
O abandono é perigoso para os terrenos cujos ciclos naturais foram perturbados durante tanto tempo pois vão acumulando reservas de material carbónico não reciclado com o passar dos anos.
A presença de pessoas e a vida selvagem juntamente com os microorganismos do solo teriam gerido ativamente as reservas de carbono e transformando-as em solos ricos criando assim uma paisagem mais resiliente.
Com a retirada das pessoas, vida selvagem e microorganismos, derivando numa multitude em espiral de reações em cadeia de causa e efeito, o ecossistema entra em declínio ainda mais acentuadamente e torna-se vulnerável a que seja afinal o fogo a reciclar o material carbónico acumulado.

Então basicamente, o que a UE faz é oferecer subsídios selectivos para culturas específicas, as pessoas acolhem-nos e uma indústria específica é desenvolvida.
A partir do momento em que esta política da UE foi instituída e intensificada ao longo dos anos, adoptou-se como solução para mercados inexistentes para as culturas tradicionais ou para se ser um proprietário ausente: Simplesmente plantar uma arvores florestais assinando um contrato incentivado pelos subsídios da UE, esperar até as culturas florestais estarem prontas uns anos mais tarde e receber altos ganhos por não trabalhar e apenas vender o ecossistema.

A indústria foi crescendo em força e controlo sendo que as pessoas não conseguiam vender as terras em Portugal pois quem quereria vir para este país esquecido, economicamente deprimido e em esforço para acompanhar o passo dos países mais desenvolvidos?
Agora já não é assim. Muitos estrangeiros começaram a vir para o interior de Portugal buscando um estilo de vida auto-suficiente, longe das suas localidades

no norte da Europa. E mais recentemente há um número nas gerações jovens de Portugueses que começam a deixar as cidades e a mudar-se para o campo.

Mas o dano foi causado antes da sua chegada. Enormes extensões de terrenos exibem esta monocultura produzindo resultados desastrosos. Sabemos isto. Sabemos a quantidade de químicos usados nas monoculturas de milho no centro oeste dos Estados Unidos ou nos campos de trigo em Espanha.

E sabemos que em Portugal morrem pessoas todos os anos, na sua maior parte bombeiros que ganham menos de 2 euros por hora para combaterem os incêndios.

Nem todas as pessoas no mundo têm acesso a papel higiénico. Na India, por exemplo, as pessoas usam água para se limparem quando vão à casa de banho. A nossa cultura instantânea não é uma Permacultura ( cultura permanente ) e há muito que trocámos a visão a longo prazo pela conveniência do lucro rápido.
É um enorme paradoxo aquele em que vivemos em que ao usarmos o papel higiénico barato para nos limparmos na casa de banho estamos a contribuir para a extinção da vida selvagem através do fomento desta monocultura e que neste caso originou uma severa e dramática perda de vidas.

Chopped brown material of bracken fern and blackberry, mechanically cut which are two incredible ladder fuels when they dry out, Tabua, Central Portugal

 

Nota da tradutora:

*Outro efeito devastador dos incêndios são as enxurradas quando chega a época das chuvas. Nos terrenos queimados e devastados pelo fogo, a água das chuvas cai e não chega a penetrar nos solos. Acumula e desliza com força pelas ladeiras levando tudo à frente e causando inundações, mais destruição e danos

A salvaguarda e reflorestação de árvores autóctones contribui para a retenção de água nos solos restabelecendo o Ciclo Hidrológico, reequilibrando o ecossistema, tornando os solos férteis e aumentando as fontes de água limpa. Na verdade são estas as maiores riquezas que um país pode ter no seu território a médio e longo prazo. E sim, evitam os incêndios… Ou seja, restabelece-se o Ciclo Natural do ecossistema.*

SOLUÇÕES

Primeiro que tudo precisamos mudar o modo de pensar para um modelo holístico. Se não cortarmos com a via do modelo de Dualismo Cartesiano, estaremos a abrir o caminho que leva à extinção da nossa espécie.
Sim, por favor, assinem as petições para deixarem os políticos conhecer o número de pessoas em Portugal que deseja ver a paisagem diversificada do seu Património Natural ser reposta.

Façam pressão sobre os políticos mas também tomem a iniciativa da acção. Necessitamos de um pacote massivo de ajuda que dirija os fundos para o corte das árvores que restam deste incêndio gigantesco e dispô-las no contorno das curvas de nível dos terrenos para que quando as chuvas vierem não levem consigo as cinzas. Com fogos de temperaturas tão elevadas e o alto teor de sílica nesta região Centro de Portugal, os solos tornar-se-ão como vidro deixando essencialmente o efeito de degradação na paisagem por muitos anos. A única

forma de evitar isto é colocar diques de retenção usando os troncos da árvores para abrandar a erosão, prender cinzas e sedimentos e permitir a infiltração de água nos solos. Essencialmente, trata-se de construir terraços com a madeira destas árvores que já se encontram no local.

 

Garanta que os seus terrenos permitem a infiltração de água no solo, que o seu portfólio de biodiversidade está a ser diversificado, que os seus terrenos são limpos com ajuda mecânica e meios biológicos. Escrevi há alguns anos sobre como os animais, neste caso vacas, estavam integrados na limpeza das florestas num caso que conheci em Portugal.

Convide os pastores a trazerem os animais para as suas terras ou torne-se também um pastor. Vamos reavivar esta tradição. Precisamos dos arbustos fixadores de nitrogénio e que os arbustos que crescem debaixo dos eucaliptos sejam reciclados, garantido que os ramos e cascas dos eucaliptos permaneçam no chão para que possam servir de alimento a fungos e que os estrume dos animais repovoe os ecossistemas degradados.

Necessitamos desesperadamente que gado e rebanhos tragam o seu impacto animal especialmente desde que a vida animal que o fazia antes há muito se extinguiu.
Em oito anos em Portugal apenas vi dois veados. Use empresas ecológicas como a EcoInterventions para limpar os terrenos ou os serviços dos bombeiros mas assuma fortemente esta responsabilidade.

Invista em produtos ecológicos e serviços como os desta empresa. Se for um Designer de Permacultura em Portugal, todo o design necessita ter uma secção relativa a incêndios.
Plante espécies que sejam retardadoras de fogo e garanta que os limites da sua propriedade estejam limpos e plantados com plantas suculentas.

Faça circular a água e o carbono. Se é um proprietário ausente, faça um acordo de arrendamento de baixos custos com jovens permacultores / caseiros para trabalharem a sua terra ou até mesmo invista na propriedade para que eles possam fazer melhoramentos.

Compre produtos locais e Portugueses e se tem um negócio de Turismo por favor garanta que compra produtos biológicos e locais para apoiar este re- desenvolvimento do território. Há tanto dinheiro a vir do Turismo neste momento e a quantidade de comida sem qualidade dos supermercados que já me foi servida quando viajo, mesmo em hotéis mais caros, pousadas e turismos rurais é surpreendente.

Use menos papel higiénico, sempre que puder use a água para se limpar. Use lenços de tecido para se assoar e guardanapos de tecido.
Fomente o espírito de comunidade e as “Ajudadas” ( grupos organizados de entre-ajuda entre vizinhos ) para limparem as terras.

Pressione os municípios a investirem na estabilização da Bacia Hidrográfica nos diferentes locais e criem Conselhos de Protecção da Água para que estes movimentos ganhem força.

Plante espécies nativas e incorpore não nativas em Bosques de Alimentos. Pressione os municípios de forma a garantir que espécies retardadoras de incêndio sejam plantadas ao longo de caminhos de saída.

Quase todas as imagens que vimos dos locais onde pessoas morreram ao tentar fugir das chamas mostram eucaliptos e pinheiros plantados até à beira da estrada. Esta falta de visão no planeamento é a causa e uma enorme tragédia e drama é o efeito.

A lista continua mas é sem duvida em todos nós que reside a responsabilidade de garantir que tragédias como esta não voltam a acontecer e que vidas não sejam perdidas em vão.

* Doug Crouch é licenciado em Aquacultura e Gestão de Vida Selvagem e Designer e Professor de Permacultura com uma vasta experiência internacional. Com origem dos Estados Unidos, é residente temporário em Portugal. treeyopermaculture.com

New Zealand Mirror Plant, Coprosma repens, fire suppressing plant from New Zealand. from http://www.aphotoflora.com/af_coprosma_repens_tree_bedstraw.html

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Small breed nimble cattle on Biodynamic farm near Amarante, North Central Portugal, cleaning up below Eucalyptus plantations

Referred to Excerpt on using Animals in the Landscape

Cows can also be used to accelerate the succession of the soil and turn a problem into a solution as I once witnessed at a rangeland in the North of Portugal.  It was a steep terrain, classically planted out with Eucalyptus monoculture, which of course makes for a fire prone hillside, which is an extremely dangerous system to create.  However, one farmer there began to raise smaller and more agile beef on these hillsides that browsed more like goats than say Angus beef.  They were tractored in a sense with electric fence being moved daily or every other day in and amongst the Eucalyptus groves.  Part of Eucalyptus’s fire strategy is to constantly shed its bark through its fast growth and drop branches.  This adds quite considerably to the fuel load below and what most grows in the understory is a mix of nitrogen-fixing bushes.  These are often quite nutritious for animals and the cows primary intake was this fire prone vegetation as well.  With the cows ranging in a small pasture, they were able to knock down the branches and bark of the Eucalyptus and chip them up and other organic material with their weight and hooves which drastically cuts the fire risk.  The material has a chance to break down biologically instead of oxidatively.  The cow manures the hillsides reinserting biology back into the system that was lost during spray, spray, spray implementation which also speeds the breakdown of this newly chipped organic material.  Then they are quickly moved on so the ground is not over compacted, the bushes are not overgrazed but the animal impact occurs.  He was so successful with his rotation that neighbors allowed him to graze his cattle on their land and was able to increase his herd size and thus profit.  He was hoping to phase out his day job in town because of this which would of course result in an even stronger system due to even more refined management.

 

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